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Ser
feliz é parecer feliz
O pior castigo é o anonimato
Por Arnaldo Jabor
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Ontem comecei um filme sobre a “busca da felicidade”,
essa ideia fixa do Ocidente, transcrita até na Constituição
americana. No filme, não trato da atual “bem-aventurança” atual,
mas de uma felicidade “de epoca”, ao final dos anos
50. Não havia ainda a abertura “psicologica” de
hoje; a felicidade se encolhia pelos cantos de um cotidiano reprimido,
temeroso de grandes alegrias, dentro e fora das familias. Era quase
feio demonstrar muito prazer, como se a risada fosse um luxo. Minha
avó aconselhava: “Cachez votre bonheur” (esconda
sua felicidade)… Era diferente do narcisismo compulsivo que
vemos agora, com ricos, jovens e famosos expondo suas gargalhadas
na midia.
Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era
uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de
louros, a felicidade demandava o sacrifício. A felicidade
se construía. Hoje, felicidade é ser desejado, é ser
consumido. Confundimos nosso destino com o destino das coisas.
Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
Ja escrevi sobre isso e volto agora por causa do filme, ao examinar
com fascínio as revistas mundanas. Olho com inveja e rancor
as fotos dos afortunados, pois todos são mais felizes do
que eu. Ser feliz é parecer feliz.
A dúvida e as dores da vida são ocultadas. Já houve
tempo em que era chique não sorrir, já houve os olhos
fundos dos existencialistas, a cara abatida dos “beats”,
fotografias em que o espectador era olhado com desprezo acusatório.
Hoje as celebridades parecem dizer: “Azar o teu por não
estares aqui, “seu” anonimo. Aqui, não há fracassos,
nao há o Inconsciente. Ninguém pode deprimir.
Tristeza
não é comercial.Tudo é claro e obvio como
nossas gargalhadas”.
Na felicidade industrializada, só o excesso é valorizado.
Não há a contemplação elegante da delicadeza,
nem a tradição de uma feliz sabedoria, de uma serenidade
discreta. Nossa felicidade não é minimalista; está mais
para uma imitação carnavalesca de Luiz XIV.
As personagens da midia feliz vivem como se não ouvesse
armadilhas na existencia; apenas o narcisismo óbvio é cultuado
como sendo o ideal a atingir. Este conceito redobrou em força,
depois que morreram os antigos agentes da dúvida, os socialismos
e desbundes. Assistimos ao triunfo da caretice disfarçada
de libertação.
As fotos dos deslumbrados e deslumbrantes não precisam de
caricatura; elas se criticam sozinhas, elas são paródias
de si mesmas.
”
Estaremos aqui para sempre, eternos em nossas baladas e desfiles
- parecem dizer - conquistamos isso tudo, estes cães de
luxo, estas sopeiras de porcelana, este vaso Ming falso”.
Muito importante é ver, nas fotos de milionarios e colunaveis,
a cenografia onde eles posam como peixes em aquarios de luxo, orgulhosos
de seus tesouros: as casas e eles mesmos.
Não se vêem vestígios “dark”. Tudo é novo,
tudo brilha, tudo é presente. Contra o decorrer do tempo,
existem os “make overs”, jorros de silicone e bochechas
de botox. Para essa gente, não houve crises e mudancas no
mundo. Nao houve anos 60, nem guerras quentes e frias, nem fraturas
ideologicas, muros caidos, fim de utopias, nada. Não aprenderam
nada e não esqueceram nada, como disseram dos Bourbon.
Nas fotos , só aparecem gestos e coisas que gritam: lustres
de cristal, galgos de bronze com olhos de safira, marmores falsos,
ouro de tolos, ninfas de marfim, objetos no estilo catete-gótico, ‘barroco
Teodoro Sampaio’ ou ‘Early Lar Center’, atacando
a arte contemporanea numa blitz feroz.
A decoração dos ambientes é para eles ou eles
são para a decoração? As pessoas combinam
com a casa. Uma vez uma perua me perguntou como era o restaurante
aonde iríamos, para botar uma roupa que combinasse. É extraordinário
como para eles tem de haver continuidade no mundo, uma coisa puxando
a outra, num lógica que começa num elefantinho de
prata e acaba na idéia de Deus.
Em muitas fotos parece não haver figura e fundo. Há fotos
em que os eternos felizes posam orgulhosos diante de seus retratos,
criando um efeito narcisico de espelhos infinitos. Quem está ali?
A dona ou o retrato?
Tudo ali é controlado pela ideia de simetria total. O abajur
tem seu par, o castiçal tem seu par, o marido abraça
a mulher em perfeita perspectiva com as duas colunas romanas que
os ladeiam e todos os pecados se apagam ali no sereno tapete e
no brasão do jaquetão de comodoro. Tudo passa a ideia
de autosuficiência, de ilha de paz e tranquilidade, realizacao
do ideal de casa, contra a rua do mundo. São abrigos contra
o mundo, são abrigos anti-atômicos num estilo rococó que
resiste a todos os avanços do bom gosto; ali pode-se viver,
andar de cavalinho de plástico na piscina e rolar no veludo
durante qualquer catastrofe economica ou politica. Nada os atingirá.
Os “venturosos” contemporaneos não se contentam
em mostrar seus bens, caras e bocas; se sentem tão acima
de nós, que adoram exibir e justificar qualquer vicio, perversão
ou vexame que cometam. Não ha mais nada a esconder; ao contrario – eles
têm o prazer de ostentar uma mentirosa auto-consciencia,
como se tivessem controle sobre o que são. “Ah…sim,
eu ja me prostitui muito, sim, eu gosto de transar em mictorios
publicos, sim, me excita até ver cenas de crimes ou chacinas – me
sinto liberado…sabe? Mas, tudo numa boa, sacou? Sou livre
e maduro..”
Mas, afinal, temos liberdade para desejar o quê? Bagatelas,
mixarias, uma liberdade vagabunda para nada, para rebolar o rabo
em revistas, uma liberdade fetichizada, produto de mercado disfarçado
de revolta de festim. Somos livres dentro de um chiqueirinho de
irrelevancias, buscando ideais como a bunda perfeita, recordes
sexuais, sucesso sem trabalho, a fama em vez do merecimento. Nao
precisamos fazer nada ou saber nada. Basta aparecer, pois o pior
castigo é o anonimato.
No futuro, (se houver algum…) essas colunas e revistas de
ricos e famosos serão uma valiosa contribuição
para a semiologia da nossa caretice.
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